sexta-feira, 17 de abril de 2015

ESCRITOR INVISÍVEL


Todos os dias, sentado em frente a tela do computador, odiando o computador, gostava de escrever à mão.
O escritor invisível criava seus textos, sonhando que um dia seria lido por milhões, seu peito inchava de alegria quando pensava nisso, seu coração ficava agitado. Um dia.
Dia esse que nunca chegava, os anos passavam, a esperança enfraquecia, as garrafas se esvaziavam, sua glória era solitária.
Costumava se considerar um grande literato, sim, era melhor do que a maioria costumava dizer para seus companheiros no bar, podia escrever como um deus, seus textos eram inigualáveis, batia no peito quando falava. Seus camaradas davam risada e concordavam com silenciosos movimentos de cabeça.
Quando já se sentia bêbado o suficiente para voltar para o inferno das letras, ele se despedia trôpego, procurava o garçom e pedia uma garrafa, para levar consigo. Essa garrafa ele nunca apreciava sozinho, seu ego estava sempre ali com ele, assoprando em seus ouvidos que ele era um mestre, ninguém poderia se equiparar.
Então porque diabos ele ainda não tinha se tornado um daqueles astros americanos, um daqueles escritores que eram puro sucesso? Porque ainda vivia rastejando, procurando por moedas?
Ninguém sabia de sua existência, seus textos nunca foram aceitos nem mesmo no mais reles jornaleco da cidade, nem mesmo o homem da banca de jornais sabia que ele era um exímio escritor de valorosas estórias, que causavam arrepios de emoções quando lidas.
Lidas por quem?                                                                                                               
Ele era invisível, por vezes nem mesmo no espelho conseguia ver seu reflexo, como um vampiro, que almeja a luz, ele almejava a luz do reconhecimento de sua obra.
Nunca fora publicado, nem uma nota sequer.
Morreu na sarjeta, caído, sem recompensas por ser tão brilhantemente ninguém.



quinta-feira, 16 de abril de 2015

ME DEIXE MORRER EM SEATTLE
CAPÍTULO II


II


As lembranças sempre voltavam, e assombravam sua mente, era ainda garoto, as coisas eram difíceis, mas não tinham se tornado o que eram hoje, sua irmã ainda não havia lhe enfiado goela abaixo aquela merda toda que fez com que ficassem agora do jeito que eram, animais, eles ainda não tinham conhecido Scott.
Agora vivia com essa coisa dentro de si, esse mal que sufocava, que corroia sua alma e seu corpo, vivia escondido de si mesmo, jamais permitiria que alguém usasse aquilo que fora obrigado a aceitar numa guerra que não escolhera, preferia ter sido morto, destroçado por cães, a ter que viver para sempre dessa forma, por isso, desde que as drogas começaram a ser usadas como forma de esquecimento, para deixar tudo pra lá, e deixar o corpo, ele optara por se manter entorpecido o máximo possível, preferia rastejar nos subterrâneos, do que ser um joguete nas mãos deles.
Ele e a irmã sempre estiveram juntos, nunca tiveram ninguém depois da perda de seus pais biológicos, viviam nas ruas, mais fugindo que vivendo, duas crianças imundas, dois anjos perdidos na imundície, comendo lixo, sendo chutados até mesmo pelos vagabundos, quantas vezes ele apanhara para tentar defender sua irmã? Quantas vezes ela se vendera para salvá-lo? Que maldição! Onde estaria sua amada irmã? Será que ela podia imaginar o quanto ele sempre precisou dela? O quanto dependia da força dela para continuar? A determinação dela era uma coisa tão acolhedora para ele, era como se ele fosse parte dela, sem ela por perto, ele não era nada, ele a amava tanto, queria poder beijá-la e a ter em seus braços novamente.
-Preciso de mais um pouco, a dor das lembranças, não aguentava.
O nada, o vazio, planando devagar...ah...as sombras dançando em todos os lugares...
Aquele menino feliz, correndo por um campo ensolarado com sua irmã, rindo, aqueles anjos louros, ela com seus poderosos olhos azuis o protegendo sempre, ele calmo e feliz que garoto lindo ele era, sem medo.
Arrastado repentinamente desse fluxo de felicidade, para o escuro, os gritos de dor, sua pele sendo queimada, ela estava lá, não era possível! Não! Por favor! Não façam isso, ele chorava, e isso os divertia ainda mais, enquanto rasgavam a pele da sua irmã devagar, e o forçavam a ver, cada vez que fechava os olhos, sentia o fogo na pele, seus gritos faziam com que ela ficasse mais desesperada ainda, eles não conseguiam completar as mutações, aqueles monstros sabiam disso, haviam congelado suas veias, para que o fluxo do medo e da dor não os levasse a fazer a mutação, eles se olhavam diretos nos olhos, ela dizia:
-Eu te amo, vou tirar você daqui, mas ela sentia tanta dor, como poderia? Como faria com que parassem de queimar sua carne?
Um soco desferido no rosto dela com tanta força que Layne ouviu o osso se partindo, ela não lutava mais, estava entregue, eles estavam abrindo suas pernas, não era possível, mais uma vez fechou os olhos.
-Olha animal! Vamos fazer ela se divertir agora, e riam em seus rosto, o calor chegando perto da pele era insuportável.
-Não! Por favor!
-Olha!
Quatro deles se revezando, penetrando sua irmã na sua frente, ela parecia desacordada, mas ele via que estava olhando pra ele, viu seus lábios mexerem mais uma vez.
-Amo você.
Aquilo foi demais, Layne não conseguia até hoje descrever o que aconteceu de verdade, só podia se lembrar do depois, quando tudo já tinha acabado, sua irmã já estava em seus braços, ele tremia quieto, sentado naquele chão imundo, com sangue por todos os lados, seus olhos começaram a enxergar o local novamente, e via pedaços dos corpos espalhados, todos os quatro, destroçados pela sua fúria, a única vez que usara a força, estava com o gosto do sangue deles na boca, olhava estarrecido, e parecia agora entender que ele, havia feito aquilo.
-Meu amor, vamos embora daqui assim que melhorarmos um pouco ok?
-Hum hum.
-Você não consegue agora não é mesmo?
-Não. Foi a única coisa que ela conseguiu dizer, desmaiou nos braços de Layne, que agora chorava apavorado, ainda não tinha certeza de ter sido o autor da carnificina. Sabia que tinha sido o autor daquilo, as imagens começavam a dançar na sua cabeça, se lembrava, não sentia nada, queria apenas ir embora, levar sua irmã dali, ela estava tão machucada, na verdade sentia que deveria tê-los feito sofrer mais, deveria ter saboreado a tortura como fizeram com ela, mas talvez não tivesse conseguido terminar, não podia ter arriscado por esse pequeno prazer. Não sabia dizer quanto tempo estavam ali, ela ainda apagada. Layne achou que era hora de irem embora, procurou movê-la com todo o cuidado, mas ainda assim ela despertou com um grito de horror.
-Calma, vou tirar você daqui, ok? Vou precisar te pegar no colo, vou tentar fazer com cuidado pra não te machucar mais, tente aguentar um pouco, ok? Ele falava de forma angustiada, porque via que ela sentia mais dor do que podia aguentar, seus olhos estavam vidrados quase em choque, ela apenas conseguiu erguer os braços para segurá-lo pelo pescoço, tentou aconchegá-la com toda a delicadeza, ele era alto, um metro e noventa, aquele corpo magro e forte lhe dava um aspecto de arcanjo poderoso, ela prendeu a respiração ao ser erguida, não conseguia nem chorar só queria morrer.
Caminhava por aqueles túneis escuros, tinha olhos poderosos, na verdade apesar de toda a fragilidade psicológica, Layne era um guerreiro, carregava sua irmã como se fosse uma pequena criança, tão maltratada estava, encolhida em seus braços, tentando manter a calma para não começar a gritar até morrer. Caminharam até que ele achou o caminho que procurava, vislumbrou uma luz fraca, sabia onde estava, e viu quem o esperava.
-Nossa! Que fizeram com vocês! Como conseguiram chegar aqui?
-Sem perguntas agora ok? Ela precisa de cuidados, está vendo o que fizeram com ela? Fizeram para me torturar, isso nunca mais poderá ser apagado da minha cabeça entende? Como vou continuar agora, sabe que quase acabaram com ela de forma tão dolorosa, por minha causa?
-Hey rapaz, calma aí, você precisa tomar um banho e descansar, vamos cuidar dela, já chamei o pessoal que vai tratar dela, ela vai ficar bem, sabe que ela não é tão frágil assim, sei que machucaram ela, e tudo mais, mas ela vai se sair bem, ela tem poder pra isso, só não acabou com eles porque eles têm aquela merda que nos congela, se não fosse isso, meu querido, ela teria dado cabo de todos sem deixar uma gota escorrer dos lábios.
-Sei, mas ela está sofrendo precisa de cuidados, e eu, bem eu preciso esquecer tudo isso...o gosto...
-Garoto, o que andou fazendo ali? Acabou com todos eles não é mesmo? Minha criança! Você é um monstro terrível, com esses olhos de anjo, esse corpo de deus grego, você é o pior de todos os monstros, que delícia!
O interlocutor de Layne era ninguém menos que Roberto, nessa época ele e alguns outros, os "pervertidos sexuais", viviam nos túneis antigos que ficavam debaixo da cidade, ele cuidava dos outros,  como um suporte, todos tinham  alguma capacidade da mutação com a droga godsmack, mas em proporções diferentes,  alguns foram obrigados a serem mais malditos que os outros, o grupo dos homossexuais, foi escolhido para de certa forma fazer o que faziam há tempos, cuidar, esconder, socorrer, conseguir informações, manipular, comprar e corromper o que precisasse ser feito, eles aceitaram esses papéis, gostavam do risco, achavam 'uma diversão', como costumavam dizer, tinham dinheiro farto, drogas sem fim, e conseguiam suas brincadeiras sexuais quando quisessem, era a vida perfeita para aqueles que tinham sido escolhidos e retirados de vidas miseráveis, em países subdesenvolvidos, como Índia, Brasil, África, todos com exceção de Roberto, foram criados para esse fim era ele quem os escolhia, Roberto vinha nessa caminhada com todos eles desde sempre, era amigo de infância dos irmãos, sempre se conheceram os três, foram transformados juntos, obrigados, escolhidos por Scott.
-Fique tranquilo criança, Roberto sempre tratava Layne assim, como um menino grande, porque era essa impressão que passava mesmo, um garoto gigante de um metro e noventa pelo menos, louro, com olhos castanhos muito grande e escuros, com um brilho indecifrável, seu corpo esguio, masculino, perfeito, com tatuagens, davam a ele um ar irresistível e delicioso, porém sempre fora tão recluso e tímido, um garoto estranho, era assim que as meninas que tentavam namorar ele o definiam, era um das criaturas mais belas que Roberto já havia visto, aliás todos os "monstrinhos" de Scott, eram belíssimos, sabia que a beleza era fundamental para a escolha, que sempre vinha aliada a uma personalidade problemática e obscura, isso ele e a irmã tinham de sobra,  sabia.
-Preciso esquecer. O que você tem aí?
Precisava se drogar para esquecer as imagens da sua irmã sendo torturada, precisava tirar o gosto de sangue da sua boca, estava desesperado.
-Criança, tenho o que você quiser, quer desligar mesmo? Então tenho o que você quer, temos cachimbos maravilhosos do Paquistão querido, com o melhor ópio dessa terra pra você esquecer qualquer coisa, vá tomar banho, ou você quer que eu te dê um banho hein? A risada provocativa de Roberto desconcertava Layne, sempre acontecia isso, ele sempre fazia essas brincadeiras, dizia que o faria aprender a "trepar" mas nunca na verdade fizera nada, via Layne como um irmãozinho desprotegido.
-Vou me lavar, pode ir ajeitando as coisas pra mim, acho que vou ficar louco se não parar de pensar nisso tudo agora.
-Vá meu bem, o quarto tem uma cama maravilhosa que te espera, com toda a droga que quiser.
-Obrigada.
Sua timidez era desconcertante, como um homem tão fantástico como ele podia ser assim tão retraído? Enquanto tomava banho, deixou que as lágrimas caíssem livremente, sentia um ódio imenso, apertava as mãos queria machucar, queria desferir esses murros que suas mãos estavam prontas para bater, mas apenas chorava, como uma criança, debaixo do chuveiro. Ficou o tempo que achou necessário até que conseguisse parar de chorar, e se controlar novamente.
Vestiu apenas uma calça jeans que havia sido deixada ali para ele, uma imagem tentadora de homem garoto, tão frágil, com olhos tão obscuros. Abriu a porta daquele banheiro e se deparou direto com um quarto, confortável, como eles conseguiam todo esse conforto aqui embaixo? Tinham uma vida de muito luxo, não se lembrava de ter visto aquele quarto antes, foda-se. Se jogou naquela cama, nem se lembrava mais da irmã, sentia apenas aquela dor física que os adictos sentem, quando estão na iminência de consumir a droga, dores no estômago, a ansiedade doentia, a vontade de cagar, tudo ali, viu todo o aparato, tinha de tudo, pegou primeiro um saquinho de pó, esticou duas carreiras e cheirou rapidamente, alívio, a adrenalina correndo nas veias, agora podia ver melhor o que havia no quarto, uma variedade de coisas, o cachimbo com ópio estava pronto, tinham deixado vário prontos, como ele gostava, era a única coisa que podia tirar ele dali agora, para longe qualquer lugar, em outra dimensão. Afundou naquela cama voando alto... sem lembranças...



Roberto sabia que agora o garoto estava perdido, há muito tempo que se perdera na mais completa loucura, ele odiava tanto, tudo aquilo, então de alguma forma, as drogas eram a única coisa que o mantinham longe, ele podia passar semanas fora do ar, costumava se esconder em lugares onde nem os informantes conseguiam achá-lo, aquele garoto queria se matar e não conseguia, era tão forte fisicamente, que as drogas atuais não o afetavam, mas psicologicamente, era um garoto frágil, sem controle de seu poder, sem vontade de ser grande, não queria liderar ninguém, já havia deixado claro inúmeras vezes, que nunca se juntaria aos outros na loucura, toda aquela violência e perseguição o estavam deixando completamente louco, ele tinha surtos de puro ódio, e quando isso acontecia, ele deixava seu ódio derrotar apenas a ele mesmo, em geral costumava se machucar, fazia cortes pelo corpo, ingeria mais drogas do que qualquer um pudesse aguentar, tentava morrer e ainda assim não conseguia,  tamanha a força que sua irmã o obrigara a aceitar, ele era o verdadeiro monstro, talvez por isso fosse desprezado e odiado, por se recusar a ser o grande líder de todos, Scott sabia disso antes de torná-lo o que era hoje, ele via alma daquele garoto, e pôde sentir a fúria contida lá no fundo, e viu também que o garoto na época queria apenas ser normal, ter uma vida comum, talvez todo seu ódio viesse daí, do fato de ele e sua irmã nunca terem sido crianças normais, com famílias normais.
Quando Scott os encontrara nas ruas de uma favela no Brasil, ele mal conseguira acreditar que aqueles dois anjos andassem, por ali sem destino, sem ninguém, duas criaturas da mais absoluta e perfeição física.
Scott conseguira tirá-los daquele país, levou-os para o lugar que mais gostava Seattle, tinha nascido na Califórnia, mas preferia viver mais acima, acha aquela cidade estranha e divertida, costumava dizer que Seattle era espaçosa, cheia de ar, e de gente doida. Aquele lugar estranho onde hoje as diversidades convivem com mais facilidade do que em outros lugares.
Os jovens se adaptaram bem, com facilidade aprenderam o idioma, viviam felizes, sem saber que Scott fazia uso daquela droga há alguns anos, as crianças o amavam como um pai, ele os vira tornarem-se dois jovens maravilhosos, o se apaixonara perdidamente pelos dois, a garota virara sua joia preciosa, nunca teve coragem de tocar Layne, apesar de sentir um desejo quase insuportável pelo garoto, jamais faria isso, era quase seu filho  e  sua criação também, sabia que os faria tornarem-se como ele, precisava daqueles dois pra sempre perto de si, sabia que o odiariam, e não o perdoariam nunca, mas que se dane, eram seus, faria deles o que quisesse, e fez.
Fez a garota ser sua amante, na primeira vez forçou  mesmo, não podia aguentar mais, precisava possuí-la, ela era tudo pra ele na época, a primeira vez fora antes das transformações, ele  a havia violentado, levado a garota, para seu quarto, começado a tocá-la de forma carinhosa, até que ela ficasse calma, depois suas mãos começar a acariciar seus seios, que lindos eram os seios dela, quando sentiu os bicos duros nas suas mãos, viu que ela estava desesperada e ainda assim ficando excitada, começou a pressionar com um pouco mais de força, ela gemeu tentando fazê-lo parar, mas era tarde, ele já estava tão duro, que nada o faria parar, enfiou a mão com força na blusa da garota rasgando o tecido, e com os seios da garota nas mão começou a lambê-los devagar, a garota assustada não ofereceu resistência, apesar do medo ela estava excitada, podia ver em seus olhos, o brilho animal do desejo, lambia e chupava os seios  com força, suas mãos desciam pelo corpo dela, até chegarem onde queria, no meio das pernas, ela enrijeceu o corpo de medo.
-Calma doçura, Scott falava docemente, enquanto sua boca procurava a da garota, lambia seus lábios devagar, sua língua forçando a entrada da boca que cedeu mais facilmente do que ele imaginava, suas mãos alcançaram o alvo, as pernas cediam devagar, enfiou os dedos na calcinha dela, estava tão molhada que ele quase gritou de excitação ao sentir aquilo, seus dedos acariciavam a garota ela parecia enlouquecer de prazer, começando a retribuir os beijos de uma forma que Scott achou que não iria mais aguentar, a garota parecia ter sofrido uma mudança de personalidade, parecia uma mulher pronta para o sexo, ele não aguentou mais, arrancava com força toda a roupa dela, sua língua trabalhava feroz, suas mãos eram violentas, a única coisa que conseguiu foi abrir as calças desajeitadamente e com força penetrou a garota, ela gritou, isso o deixou ainda mais enlouquecido, começou o movimento de penetração com rapidez e violência, ela parecia assustada mas estava tão excitada quanto ele, ela o agarrou com força, com a boca colada na sua, se esfregava no seu corpo.
-Deliciosa você é minha, será minha pra sempre.
-Com força, vem.
Aquilo fez Scott sentir vontade de gozar na hora, nunca imaginou que a garota seria assim tão sua, sem resistência, o desespero era tão grande que ele teve que parar por um momento para não acabar ali, ela por sua vez, continuava o deixando enlouquecido com sua boca, ela o lambia devagar, com beijos deliciosos e provocantes, apertava seu corpo contra o dele ainda mais, como uma provocação pra que ele gozasse, ele a puxou com força, obrigando a se virar, abrindo as pernas dela, penetrou com violência, ficando cego de prazer. Sabia que a garota ainda não terminara, começou com satisfação a esfregar os dedos nela pra que ela gozasse também, chupava e a lambia com prazer, e viu quando ela começou a se mexer com força apertando seu corpo no dele, e a viu gozando, que maravilha foi aquilo.
Layne sabia o que tinha acontecido nessa época, e não gostou, sentia um ciúme doentio da sua irmã, apesar de saber que ela costumava fazer sexo em troca de coisas que os dois precisavam quando estavam nas ruas, mas com Scott era diferente, ele sabia que sua irmã havia desejado apesar de nunca ter se manifestado, dito ou demonstrado qualquer coisa nesse sentido, Scott os retirara das ruas, cuidara deles dois, agora estuprar sua irmãzinha? Caralho, isso ele não podia suportar, sentiu ciúme pelos dois, por ela, por seu amor estranho e por ele, sem saber direito o porquê.
Scott era um homem estranho, já o vira diversas vezes com rapazes, uma vez ficara espiando por uma fresta da porta, quando Scott levara dois garotos para casa, e passou a noite toda com eles, fazendo sexo e usando drogas, vira tudo  Scott, seduzindo os dois, e fazendo sexo, de forma violenta e excitante, ficara excitado vendo aquilo tudo, e se podia se lembrar bem daquela noite, Scott sabia que ele estava assistindo, por vezes olhava na sua direção e sorria, apesar de Layne saber que não podia ser visto, e cada vez que Scott olhava na sua direção, parecia ficar mais excitado e violento. Scott costumava drogar suas presas, oferecendo diversão, fazia com que bebessem muito cheirassem muito pó, uma mistura incrível, depois enquanto penetrava suas presas, costumava acender cigarros de maconha e fumava enquanto transava, forçava seus parceiros e parceiras a fumar e cheirar durante o ato, era estranho e excitante vê-lo esticando pó no corpo daquelas pessoas, e aspirando enlouquecido, aquilo deixava  mais perturbado ainda, por fim, espiar Scott em seus atos sexuais, acabara virando uma coisa que Layne não conseguia evitar, e tudo indicava que Scott sempre sabia e fazia questão de deixá-lo assistir, aquele homem,  aquele monstro, tão desprezível e ainda assim nenhum dos dois podia mais viver longe desse monstro dominador.
Com o passar do tempo, Layne começou a sentir uma raiva contida contra Scott, o que ele fazia com sua irmã era desprezível, ele costumava sodomizá-la, ao que parecia que ela correspondia sendo submissa e atendendo aos desejos cruéis daquele homem, ela não conseguia reagir contra ele, ele nunca soube se ela gostava daquilo, ou se submetia para não sofrer coisas piores nas mãos dele, só que a situação começou a ficar insustentável, ele não podia continuar lá, vendo sua irmã se tornar o brinquedo de torturas sexuais daquele homem louco, ele costumava insinuar que queria fazer o mesmo com ele, mas nunca iria acontecer, ele queria os dois irmãos,  queria os dois juntos, sua monstruosidade era tão imensa, que uma vez dissera em tom de brincadeira, que seu sonho era assistir os irmãos juntos na cama, queria ver seu garoto penetrando a irmãzinha, aquilo fora demais, Layne partiu com todo seu ódio pra cima de Scott, tentando atacá-lo com fúria, foi uma briga cruel, por fim, Scott o dominou,  e Layne apanhou, Scott batia tanto, dava chutes na cabeça de Layne, o garoto parecia não reagir mais.
-Vermezinho.  Scott puxava o garoto pelos cabelos, falava rosnando perto de seu rosto ensanguentado, falava com uma ferocidade que nunca vira antes.
-Escuta bem garoto, se eu quiser ponho vocês dois juntos e obrigo você a foder sua amada irmãzinha, tá entendendo? Seu merda ficou com raiva porque eu revelei seu maior desejo não é mesmo? Sei que sonha com ela, sonha em colocar esse seu pau dentro dela com força, como e eu faço, sonha beijar aquela boquinha deliciosa e chupar aqueles seios de anjo, sei disso garoto, eu posso ler os seus desejos mais secretos, e sei que queria ser dominado por mim, seu sonho mais profundo é estarmos nós três juntos, eu sei disso, e esse também é o desejo dela, e o meu, todos compartilhamos dessa vontade. Porque não faço logo? Porque desprezo você, essa sua bondade, esses conflitos de anjo que você carrega, te tornam fraco e pequeno, não vou deixar você fazer isso com ela entendeu? Vou te chutar daqui pra fora, por você num buraco qualquer seu bosta! Nunca mais, nunca mais entendeu? Você vai tentar me questionar ou ir contra uma ordem minha.
Scott jogou a cabeça de Layne com força no chão, sua irmã apareceu nesse momento, seus olhos arregalados podiam descrever o que ela via, seu irmão ali no chão machucado, sangrando pelo nariz e boca, caído no chão chorando com o mais puro ódio.
-O que você fez? Seu monstro desgraçado! Ela batia em Scott, que ria divertido com as tentativas dela em feri-lo.
-Acalme-se sua vadiazinha, ele pediu pra apanhar, esse merda, não gostou de ouvir a verdade sobre vocês dois, os irmãozinhos que querem foder e não fodem porque são cheios de escrúpulos, não podem.
-Cale a sua boca seu nojento!
-Cale-se você cadela, e vá limpar esse bosta desse seu irmão, e depois vou por ele pra fora daqui, não quero mais viver com o anjinho perturbado, ele está fora, quero ele na rua agora mesmo entenderam? Vocês dois me entenderam?
Puxava a garota pelo cabelo com força pra fazê-la olhar para ele enquanto falava, com aquele jeito de rosnar ao invés de falar. Quando puxou ela pelos cabelos ainda teve a ousadia de beijá-la na boca enfiando sua língua maldita dentro da boca da garota, que não ousou contrariar e correspondeu aos beijos que a machucavam.
-Limpe-o e mande ele sair, quando eu voltar, não quero sentir nem o mais leve cheiro de anjo por aqui. E saiu batendo a porta com violência, deixando os dois ali no chão, derrotados e humilhados.
Ela começou a levantar seu irmão com carinho e delicadeza, ele estava realmente machucado, nunca vira Scott agir assim, ainda mais com ele seu menino, como costumava dizer.
-O que ele disse pra você ir pra cima dele meu querido? O que foi? Porque ele bateu tanto em você?
-Não importa, dizia já se levantando, vou embora mesmo, não posso mais ficar aqui, você virá comigo?
Ela olhava apavorada para o irmão, não podia estar acontecendo, não era possível, ela não podia deixá-lo partir assim.
-Meu bem, calma, vamos cuidar desses machucados primeiro ok? Depois vemos o resto.
-Não! Você não está vendo? Não podemos continuar com isso, precisamos ir embora, ele faz o que quer com você e você deixa, parece que nem liga…
-Não é isso querido, você não entende? É uma forma que tenho de controlar ele também. Até agora eu estava conseguindo e o          mantinha longe de você, não deixei ele te fazer nenhum mal.
-Mal a mim? Seu tom era de desprezo.
-Sim, como ele fez hoje, olha só pra você meu querido, ela o abraçava gentilmente.
-Ora, me deixe, eu não posso continuar aqui vendo tudo o que esse cara faz e ficar quieto, eu não aguento mais entende?
-Layne, o que aconteceu aqui realmente? O que foi que Scott fez pra deixar você com tanta raiva? Me diga!
-Nada, não importa mais, estou indo embora, se não vier comigo, então é o nosso fim.
-Não!
Ela não conseguia mais controlar as lágrimas, a tensão de ver seu irmão machucado indo embora era demais, chorava descontroladamente.
-Calma amor, estou indo embora, mas sempre darei um jeito de mandar notícias pra você, está bem? Olhe pra mim, preciso que me olhe nos olhos e sinta que estou dizendo a verdade, nunca menti pra você, confie em mim, vou mandar notícias sempre, ok?
Layne virou as costas pegou uma camiseta que estava numa cadeira e saiu, sem mais nada, não queria nada daquele lugar.
Partiu, deixando sua irmã chorando desconsolada em desespero, nunca haviam se separado e agora, não havia a menor possibilidade de mudar o fato.
Quando Scott retornou sabe-se lá de onde, encontrou a garota sentada no mesmo lugar, onde a briga tinha acontecido, ela ainda segurava o pano que tinha limpado o rosto do irmão, seu sangue nas mãos.
-Hey garota, o que está fazendo aí, levante-se, ele a forçou a se levantar e praticamente a arrastou para outro lugar. Ela permanecia muda, apática, sem reagir às palavras dele.
-Vai ficar assim? Sem falar nada? Como uma estátua olhando pra minha cara?
-Odeio você! Ela começou a se levantar e caminhar para a saída da sala onde estavam agora, mas Scott a agarrou pelo braço a forçando a parar.
-Onde você pensa que vai? Não mandei você sair.
-Me solta, seu idiota!
O tapa que sentiu no rosto foi tão inesperado que a deixou completamente paralisada.
-Você pensa que pode falar assim comigo porque coloquei aquele bostinha do seu irmão pra correr? Sabe porque fiz isso? Aquele garoto tentou me agredir porque eu disse umas verdades, não aguentou o que ouviu.
-O que você disse a ele?
-Que ele deseja no mais profundo do seu ser é poder foder a irmãzinha que ele tanto ama.
-Ora seu cretino! Ela tentava arranhar o rosto de Scott, ele a segurava com força, e começou a bater nela, com tapas não muito fortes, para tentar pará-la.
-Seu nojento, como pôde, ela estava engasgada de raiva, como pôde dizer isso…odeio você…
-Calma cadela, fique bem calma agora, ou eu acabo com você e com aquele idiota entendeu?
Scott começou a acariciar os seios dela.
-Pare com isso, que nojo eu tenho de você!
-Calma, e apertava seus seios cada vez com mais força, sabia o quanto aquilo deixava ela excitada, começou a lamber seu pescoço devagar, e sussurrava:
-Eu mando e você obedece.
As lambidas subiam para sua boca, ela entreabria os lábios deixando ele entrar feroz, estava pronta e obediente. Scott arrancou sua calcinha com força, machucando sua pele, e mais uma vez a submeteu com violência, ela obedeceu cega.
-Ajoelha, assim, isso, forçava o sexo oral, obrigando a engolir o pau duro e grande, ela apenas obedecia.



Estava sozinho, havia se livrado de Scott, mas seu ódio não diminuía, sua irmã estava lá, ainda era escrava daquele verme, o que faria? Como tirá-la de lá? Caminhava sem destino, onde iria ficar, não importava, dormiria na rua, tudo bem, sabia bem como era isso, sentia tanto ódio de Scott que não conseguia pensar em nada, precisava achar um meio, como faria, ainda não sabia.
Andando por aqueles becos, procurava o caminho do lugar onde conhecia pessoas que o deixariam dormir em um canto qualquer. Estava desconcertado, a discussão com Scott ainda o perturbava, as palavras grosseiras ainda estavam ecoando em seus ouvidos, aquilo era mentira, como Scott podia ter sido tão monstruoso dizendo aquilo? Sua irmã...precisava esquecer, precisava apagar aquilo da lembrança. Encontrou o lugar que queria, a luz estava acesa, nem precisou bater, a porta se abriu.
-Hey garoto, é você? O que está fazendo por aqui? Veio atrás de diversão não é mesmo?
O homem que abrira a porta era um conhecido seu, um traficante, de aspecto nojento e violento.
-Entre, tenho o que precisa, com certeza tenho tudo o que quiser, está com grana aí?
-Sim, isso não é problema.
-Haha, nunca é no seu caso, não é mesmo?
- Hum hum, apenas resmungou, não queria conversar, queria apenas enlouquecer e ficar alto, sair dali, apagar o que havia acontecido.
-Sente-se, tenho uma coisinha diferente pra você hoje, tem medo de agulhas?
-Não, porque?
-O que você vai usar hoje, meu velho, vai direto pra sua veia, você não vai acreditar no poder dessa coisinha.
-O que é isso?
-Heroína, meu chapa, o barato do momento, já ouviu falar?
-Já, ouvi qualquer coisa por aí.
Nessa época, essa droga estava começando a circular pelo mundo, ainda era uma novidade cara e de pouco acesso, e prometia uma viagem louca sem controle.
-Vamos lá então, quero essa tal de heroína, com faz?
O traficante preparou a dose, colocou na seringa, e aplicou em Layne, em poucos segundos a reação, uma coisa tão violenta e assustadora, que ele não conseguia entender o que estava acontecendo, sentiu medo nos primeiros instantes, mas depois, ah, depois nada, a libertação, ele estava longe, voando alto, o corpo tendo espasmos, deitado naquele sofá imundo, que delírio! Era tudo o que ele queria, esqueceu.
E ficou lá a cada dose, o esquecimento, a loucura a dor, tudo junto, o medo, a sensação de alívio momentâneo, queria mais, e mais, ficou ali por aproximadamente uma semana, queria ficar para sempre, não queria mais viver, queria arrebentar o coração, explodir seu cérebro, mas não conseguia, que seja, ficaria assim pra sempre, rastejaria na sua existência, não retornaria nunca mais.



Os dias que se seguiram, foram os piores dias da sua vida, esperando seu irmão mandar notícias que nunca vinham. O desespero de estar ali sozinha, prisioneira de Scott, sem forças para fugir ou atacá-lo, recebendo doses diárias daquela maldição, ele a obrigava e engolir, queria que ela fosse indestrutível como ele, seria a noiva do monstro, aquela que não seria tocada por mais ninguém. Scott a manteve trancada em um quarto por semanas, ela estava esperando o retorno do irmão.
Scott era cruel, não permitiria que ela reagisse, a estava transformando em monstro como ele, ela e o irmão já vinham recebendo o godsmack há muito tempo, não era necessário mais, porém, Scott a queria presa a ele, acorrentada psicológica e emocionalmente dependente, podia assim usá-la como quisesse, ele tinha uma obsessão doentia por ela e não escondia isso, dizia que seu maior prazer era machucá-la e ainda assim vê-la gozando, mesmo enquanto a torturava era doentio e repugnante, ela sabia, mas aceitava, já não queria mais reagir nem lutar, deixou isso para Scott, ele cuidaria de tudo, prepararia as fugas, controlaria os grupos e faria a guerra, ela seria uma sombra atrás da porta, não podia morrer e nem matá-lo, queria seu irmão.
Scott agia com verdadeira crueldade, deixando ela ali por dias apenas enviando alguém para ministrar a dose, e deixando apenas água, dias depois aparecia, e a obrigava a fazer sexo, das formas mais submissas, a obrigava a atos que ela nunca imaginaria, costumava estrangulá-la durante o sexo, agia com força, usava objetos que a feriam,  humilhava obrigando a lamber seus pés, até a andar de quatro, como uma cadela, ele parecia se divertir bastante com aquilo, costumava cuspir em seu rosto, a forçando a lamber e engolir.
Começou a bater nela, ela não tinha força para reagir, estava ali há dias, sem comida, fraca, ele batia, e por um momento quando parou de esbofeteá-la, ela viu que ele chorava, tinha o olhar assustador, mais do que o que ela já tinha visto, ele parou, e ficou encarando-a, ela tentou se afastar para um canto para fugir de mais agressões, ele tinha terminado, olhava para ela e chorava, sem se mexer.
-Sei onde o bostinha do seu irmão está, falou com tom de desprezo, acendeu um cigarro, como se não fosse nada.
Ela ficou alarmada, apesar de sentir o rosto queimando, seu medo por Layne era maior.
-O que você fez?
-Nada, não vou fazer nada com ele, estamos vigiando aquela porra de garoto, sabe que ele está num beco há mais de uma semana se drogando? Usando uma merda nova que apareceu, uma coisa que injetam na veia, e promete loucuras.
-Deixe ele em paz, por favor, eu estou aqui, ficarei sempre com você, deixe meu irmão, não o machuque. Seu medo era tão intenso que começou a tremer.
-Vou deixar ele em paz, mas preciso saber o que ele anda fazendo e com quem anda falando, não posso largar ele por aí, ele é doido, pode começar a falar coisas.
-Ele não fará isso, jamais faria, ele só quer se afastar de toda essa sujeira, só isso.
-Aquele idiota! Tem se drogado mais do que qualquer um pode aguentar, ele é um monstro e não sabe usar o poder que tem. Seu tom de desprezo e raiva eram nítidos.
-É melhor assim, não é mesmo? Ele nunca vai tentar disputar o poder com você, e isso já é um alívio pra mim, não iria aguentar ver vocês em combate, mais do que já fizeram todo esse tempo. Ela começou a chorar, de alívio por ter notícias de seu irmão, e de medo, em pensar que Scott sabia o paradeiro dele, se quisesse, poderia fazer algo contra ele, e ela ali, presa, sem poder fazer nada para cuidar de seu irmãozinho.
-Me tire daqui Scott, acho que já me castigou o suficiente não é mesmo?
Ela estava sentada no chão num canto do quarto, sentindo seu rosto queimando ainda com as marcas das mãos dele.
-Vou tirar meu bem, você já aprendeu que eu mando aqui, e você deve ser minha e obedecer a cada ordem que dou, não é mesmo? Falava isso, e se aproximou dela, segurou seu pescoço, dessa vez com delicadeza, e começou a beijá-la, com amor e doçura, aquilo a assustou mais do sua violência, tremia mais ainda, mas correspondia aos beijos dele, não queria que se zangasse e ficasse violento.
Ele a ergueu com cuidado no colo, e a levou para a cama, tirou aquele vestido que usava há dias, tirou sua calcinha, ela estava completamente nua, e assustada, porém ele foi doce, acariciou seu corpo com amor, acariciava seus seios, e os beijava, descendo os beijos por todo o seu corpo, chegou nas suas pernas, e as abriu  devagar, e começou a beijar e lambê-la, até chegar no meios das pernas, e fazer um sexo oral delicado, apenas  dessa vez, ele conseguia deixá-la extremamente excitada, mesmo com a raiva que ela sentia, não podia evitar, ele era um homem maravilhosamente belo e sexy, e aquilo era impossível de esquecer, ele a deixou completamente entregue.
-Quero você dentro de mim Scott, pediu quando ele subiu novamente para sua boca, foi atendida prontamente, e dessa vez, um sexo normal, delicioso, sem maldade, ele a deixou sentir seu amor, sem o poder da dominação, apenas um homem, amando uma mulher, ele parecia até normal. Ela chorou, o amava apesar de tudo.
-Vamos, deixe-me tirar você daqui, daqui pra frente você vai viver como se você fosse minha garota, como dizem por aí, minha namorada, vai estar comigo, precisamos ir atrás daquele bispo de merda, ele anda exagerando, está misturando nosso veneno nas águas da cidade, quer fazer uma lavagem cerebral em todos, quer disputar o poder comigo, usando um exército de lixo humano, vou ensinar a ele que não pode tentar me enganar. Tenho que tomar providências, viu como a religião dele se prolifera nesse lugar? Ele está dando doses aos fiéis, que por sua vez levam sem saber pra casa e dão para seus filhos como se fosse uma coisa santificada, aquele filho da puta… vou mostrar a ele…
-O que vai fazer Scott? A coisa está saindo do controle? É isso?
-Acontece que nosso acordo era fazer algumas pessoas se tornarem como nós os escolhidos e aquele cara começou a quebrar o acordo, esse cara que nunca conseguimos eliminar, é nossa pedra no sapato, montou sua legião de fanáticos, e o pior de tudo deu aos exércitos doses tão violentas, que os tornou verdadeiros animais.
-Sim são como animais, essa coisa fez com que se tornassem a versão mais primata da mutação, tenho medo Scott, será que ficaremos como eles?
-Não sei dizer, acredito que não, nosso intelecto é superior, talvez ajude a segurar e controlar esse rebaixamento, não sei. Veja seu irmão, se tornou um poeta, um anjo maldito, que não quer lutar, não quer combater esse mal.
-Ele sempre foi um anjo, sempre teve a alma mais pura que nós, sempre sofreu mais com tudo isso, às vezes me arrependo de ter feito isso com ele, devia tê-lo deixado viver seu tempo…mas eu não poderia ficar aqui sem ele.
-É, não poderia viver sem ele, e agora temos que vigiar esse garoto, e cuidar dele, porque ele de tempos em tempos tentar enlouquecer pra fugir, e o pior é que não adianta, ele nunca vai conseguir, mas que se foda, ele que viva com as dores da mente, que sua alma queime no inferno!
Scott amava Layne, de todas as formas, como filho, como um amante desejado que nunca possuiu, como amigo, e como inimigo, talvez fosse seu maior desejo depois da irmã, ele queria tanto aquele garoto, mas nunca teve coragem de tocá-lo de forma que o assustasse ou o fizesse reagir mal, queria ter aquele rapaz nos braços, seu maior desejo era possuir irmão e irmã juntos, e vê-los trocando carícias entre si, só o pensamento já fazia seu pau endurecer, queria violentar Layne, beijá-lo em todos os lugares, chupá-lo até fazer com que gozasse na sua boca, era um sonho que tinha, talvez por isso, sentisse tanto prazer em descontar na irmã a violência de não poder tocar naquele que era como seu filho.
-Vá para seu quarto, tome um banho, bem faça o que quiser, não vou prender você, será minha companheira, você é a única que tem inteligência pra poder me ajudar e destruir esse verme religioso.
-Obrigada Scott, estarei com você, não se preocupe, só quero te pedir uma coisa.
-Já sei o que vai me pedir, não vou atrás dele, vou deixá-lo em paz.
-Peça pra cuidarem dele sim? Preciso saber que ele está protegido, mesmo que fique lá se drogando por toda a eternidade, tenho que saber que está vivo, só assim poderei ser sua companheira.
-Está certo, agora me deixe em paz, vou sair, dar um giro pela cidade pra ver como as coisas estão, e trazer um pouco de pó pra gente usar mais tarde. Fique linda pra mim essa noite, vou querer trepar com você, já estou querendo agora, mas não vai dar, preciso sair. Mordeu de leve os lábios dela, automaticamente sua língua avançou pra dentro da boca, ele não conseguia evitar o desejo.
Saiu, sem uma palavra, ela se sentiu aliviada de vê-lo indo embora, era sua escrava sim, e gostava de ser submissa a ele, ou se acostumara, já não sabia mais, há tempo vinham vivendo juntos, não sabia se sentia ódio ou amor, talvez as duas coisas fossem uma só.
Nessa época, ela achava normal viver sob o jugo de Scott, antes, há tempos atrás, as coisas não eram assim, Scott apesar de ter criado ela e  seu irmão, não os tratava com crueldade, eram uma família, sim naqueles tempos eles ainda se consideravam felizes depois da morte dos pais biológicos, depois de terem vivido pelas ruas, e sofrido todo o tipo de abusos, ela e o irmão viveram por longo tempo felizes e ingenuamente com Scott, até que em um determinado tempo, Scott achou que era hora de torná-los iguais a si, e começou lentamente a ministrar doses da “benção” nos alimentos dos dois, foi então que as mudanças físicas começaram, a agressividade aflorou, o desejo sexual, e a paranoia.
Então Scott começou a demonstrar outro tipo de amor pelos dois, começou a revelar sua verdadeira essência animal, e a forçou sexualmente, disse que era preciso torná-la sua, era assim que devia ser,  ela na época não pôde lutar contra ele, Layne estava sofrendo, perdido ele não queria se transformar e havia fugido pela primeira vez, e Scott dissera a ele que quando o achasse o esmagaria, ela não poda permitir, então resolveu aceitar a violência sexual de Scott, para desviar sua atenção de seu irmão, funcionou, por um certo tempo apenas, depois as trevas chegaram para os dois, ela e o irmão se tornaram de certa forma prisioneiros de Scott, ele já  o havia  achado perambulando perdido em praias distantes, e havia obrigado a voltar, dizendo o quanto maltrataria a irmã se ele não retornasse. Ele voltou, e a partir daí foi obrigado a se tornar monstro também.
Sua irmã dizia que se os dois ficassem tão fortes quanto Scott, poderiam fugir, se livrar de tudo aquilo, ir para longe, e viver como pessoas normais, ele achou que poderia acontecer, mas as coisas não saíram como o planejado.
Scott não era bobo, sabia muito bem o que os irmãos planejavam,  por isso os manteve sob vigilância constante, deixava que o rapaz se drogasse o quanto quisesse, e de preferência deixava a irmã também, dopando os dois dessa maneira, podia cuidar pra que não se rebelassem os dois ainda eram jovens, ia esperar um pouco mais pra transformá-los de vez, por enquanto ia ministrando pequenas doses de maldição nas suas vidas, eles não percebiam, e aos poucos ia adquirindo  o poder que queria que adquirissem, depois, quando se dessem conta, seria tarde, a coisa já estaria feita, eles não iam mais se livrar daquilo, seus corpos estariam modificados para sempre.
Ele sabia o quanto sentiriam ódio dele por isso, que tentariam de tudo pra se livra da coisa toda.
O tempo foi passando ele viviam em relativa paz, não se podia dizer que viviam em harmonia, depois que as brigas começaram, que Layne, começou a se rebelar contra Scott, as coisas nunca mais foram as mesmas, Scott sabia que perderia a mão se afrouxasse o controle sobre eles, sabia que o garoto lhe traria problemas com o passar do tempo, até mesmo a garota seria um problema, os irmãos tinham uma personalidade diferente, e fora por isso que os escolhera, fora o brilho dos olhos deles que chamara sua atenção na época, a raiva por trás do distanciamento doloroso, sabia que eram criaturas de inteligência superior, que carregavam um ódio maior dentro de si, bastou um molhar para saber que os queria.


sexta-feira, 10 de abril de 2015

                O PEQUENO DEUS

                   
A PÉROLA

 O ANJO

ME DEIXE MORRER EM SEATTLE

CAPÍTULO I


I


As sirenes tocando, chuva, confusão, o homem caído, ferido, sangue sendo lavado pelo céu, sentada no meio fio, olhando alheia, o cabelo escorrido no rosto, suja, cheia de arranhões, com frio, as pessoas falando ao seu redor.  Não conseguia ouvir nada só o tumulto, como se fosse um imenso zumbido atordoando ainda mais sua cabeça dolorida.
Viu erguerem o corpo na maca, ensopado de sangue e chuva, o que havia acontecido mesmo? A dor por todo corpo começando a aumentar por causa do frio, alguém estava falando diretamente com ela, não conseguia prestar atenção, o que tinha acontecido ali? Porque estavam levando aquele homem numa ambulância?
Os paramédicos estavam perguntando algo, ela não conseguia entender, apenas olhava para o homem que falava e não sabia porque eles estavam ali ou o que tinha acontecido, porque estavam ali? Era mesmo ele que ela estava vendo ali, deitado agora dentro da ambulância recebendo os primeiros socorros? Seu amigo.   
Curiosos passavam e paravam para observar, em meio à confusão de polícia e socorristas.
- Devia ser um sonho logo acordaria.
Algumas imagens apareciam em flashes na sua cabeça, gritos, pessoas correndo, tudo muito confuso, nada fazia sentido e logo tudo desaparecia e ela voltava e ver as pessoas ao seu redor falando, falando, e ela ali sem entender, sentia dores por todo o corpo, alguém colocou um cobertor em torno de seus ombros, tentavam levantá-la, ela queria perguntar para onde estavam indo porque ela estava ali, mas não conseguia falar, sentia tanta dor de cabeça, tinha sangue nas mãos.
Escuro.



Acordou em casa, Eddie sentado numa poltrona próximo a cama em que estava deitada.
-Ah! Acordou, o que foi aquilo tudo? O que aconteceu dessa vez?
-Onde ele está?
-No hospital, muito machucado, dentes arrancados, um dos olhos bastante prejudicado, e o pior de tudo, os cortes nos pulsos, foi um ataque violento.
-Eu nem consigo me lembrar das coisas direito... estou toda dolorida...eu apanhei também?
 -Porra, como eu vou saber? Só fui buscar você, voltou conversando comigo, não lembra?
 -Na verdade não... minha cabeça....
 -Acho que você tomou uns sopapos também, o que vocês estavam fazendo? Onde estavam indo? Aquela bicha provocou isso?
-Para de falar assim da Susy.
Na realidade o que ela tinha passado era muito maior do que sua mente podia   lembrar, talvez o medo e a dor tivessem bloqueado, tinham usado a droga, e os efeitos sempre eram uma surpresa, não queria se lembrar, todas as vezes era assim.
Depois de tanto tempo, o uso daquilo já era uma dolorosa e agoniante alteração, as reações psicológicas não eram o pior, a mutação física era a coisa mais difícil que aquilo causava e de uma certa forma, uma satisfação que não podia ser descrita.
Só que dessa vez houve um descuido dos dois, como ficaram sabendo quem eles eram, ou aquele confronto fora casual de bandidos comuns?
Seu corpo estava cheio de manchas roxas, tantas dores que mal podia se mexer, estava com algumas unhas quebradas, percebeu que tufos de cabelos haviam sido puxados, a cabeça parecia ter sido batida contra o chão diversas vezes, bem possível.
Eddie se aproximou dela com muita raiva e a segurou pelos braços.
-Mais que porra! Vocês nunca vão parar com essa loucura!Porque? Continuar isso, até quando? Já pensou o que vão fazer com você e se agora já sabem onde estamos, vai começar tudo outra vez....
 - Calma honey, vamos tomar mais cuidado agora.
-Agora? Porra, não viu o estado daquele viado? Viu o que fizeram com ele? Foi por pouco, por muito pouco dessa vez.
-Eu sei, na verdade não sei, não me lembro, não sei por que dessa vez não consigo lembrar.
-Talvez algum novo efeito dessa merda toda.
-Pode ser, quem sabe...Preciso dormir um pouco, pode deixar tudo escuro?
-Preciso sair, vou deixar você descansar, tente colocar sua cabeça no lugar querida, isso não pode continuar assim, as coisas vão sair do controle, pense nisso.
Ela o abraçou com carinho e o beijou com amor, mas pôde ver que seus lindos olhos azuis estavam mais tristes do que o normal, olhos, que eram pra ela um espelho profundo da alma daquele homem que ela amava tanto, que amava mais que tudo. Deixou que ele saísse.
Caiu em um sono sem sonhos, pesado e escuro como aquele quarto.
Quando acordou, já não tinha mais noção de tempo, Eddie estava ali, como sempre, ele sorria,
-Boa tarde querida!
Seu sorriso era tão encantador que ela não podia deixar de pensar com dor porque fazia tudo aquilo, porque não podia deixar toda aquela loucura de lado, e viver com seu amor apenas? A loucura fazia parte de seu amor, e ele sabia disso também, talvez ele a amasse toda essa loucura, e por terem vivido juntos antes coisas estranhas, não podiam mais cogitar uma separação de fato. Ela questionava se ele a amava realmente, ou se apenas estava acostumado a cuidar dela como um irmão mais velho, pensar nisso era doloroso, imaginar que seu amor era menor a fazia sofrer mais do que poderia aguentar. Seu amor por Eddie era intenso.
-Fiz café pra gente querida, está com fome?
-Estou morrendo de fome, quanto tempo eu dormi?
-Quase três dias.
-Tudo isso?! Nossa! Dessa vez esgotei tudo que tinha mesmo, disse isso com um sorriso desmotivado.
-Sim, você se arrisca sem necessidade.
-Você sabe que não é bem assim, sabe porque   me submeto a isso tudo.
-Sim eu sei, mas você acredita mesmo que vai conseguir continuar? Acha que ainda é necessário tudo isso, toda essa dor, ainda mais porque os maiores prejudicados são vocês?
-Sim, na verdade, fomos os maiores prejudicados e precisamos acabar com tudo isso, você não pode achar que eu poderia viver toda essa merda assim com essa lembrança me castigando, me diminuindo a cada vez, sabe que cada vez é mais dolorido e perigoso não sabe?
-Querida...
Por favor, não me peça para parar agora, depois de tudo… por favor...eu não posso, agora que conseguimos nos equilibrar com essa porra dessa droga...
-Equilibrar? Olha o que você passa cada vez que usa essa merda, toda essa dor, essa coisa horrorosa, você pode chamar de equilíbrio?
-De certa forma sim, evoluímos muito, não acha?
-Sim, mas a cada dia isso tudo fica pior, e os riscos aumentam e você se expõe, de forma desnecessária.
-Tudo o que faço é necessário amor. Os fanáticos estão por aí, a cada dia aumentando, como ratos.
-Ok. Vamos comer, deixemos esse assunto para depois então. Você está bem para descer?
-Sim, estou apenas com dor no corpo das pancadas eu acho, mas posso descer.
Desceram para fazer a refeição.
Comeram com apetite, ovos, suco de laranja, ele havia até comprado bolo de chocolate pra ela, que sabia ser seu preferido. Ela comeu com vontade, depois foi pra varanda da casa e acendeu um cigarro, fumou tranquilamente, como se sua vida fosse aquela coisa pacata e feliz daquele momento, queria que tudo se resumisse a apenas isso, que pudesse descansar sua cabeça no colo do seu amor e ficar em paz e que todas as dores e lembranças, que eram tão difíceis carregar sozinha sumissem para sempre
-Querido, pra onde levaram a Susy?
-Acho que foi pro Hospital Universitário porque, você está querendo ir lá?
-Claro, preciso vê-lo, saber direito o que aconteceu, ver como ele está, ver o que ele se lembra, quem eram aqueles caras, não sei, preciso saber por que queriam nos pegar, se eram quem estou pensando.
-Sim meu bem, vamos ao hospital, você quer tomar um banho? Se refazer   primeiro?
-Acho que estou num estado lastimável não é mesmo?
Os dois riram, porque realmente ela não estava com aspecto muito estimulante. Terminou seu cigarro, subiu e foi direto paro o chuveiro, para um banho quente demorado e relaxante, precisava muito disso.

No hospital ele já tinha acordado em sobressalto, as dores no corpo, as agulhas espetadas nos braços, o barulho das máquinas monitorando seu corpo o deixaram mais assustado ainda, estava sozinho numa enfermaria, ou UTI, não sabia o que era, seu verdadeiro nome era Roberto, mas por ser homossexual ao longo da sua vida recebeu os mais diversos apelidos e Susy era um dos mais usados, até mesmo por ele.
Sabia que precisava sair daquele hospital rapidamente, não podia deixar que fizessem exames mais profundos em seu sangue,  nem nada mais abrangente, que pudesse identificar alguma anomalia, começou a arrancar as agulhas, saltou da cama, derrubou o pequeno criado mudo que estava do lado da cama, o que o fez ficar mais assustado ainda, seu desespero era tamanho que começou a sentir as dores da metamorfose começando, não podia acontecer ali de forma alguma, o suor frio, a raiva violenta aflorando, podia sentir a pele repuxando, não podia acreditar que a coisa ia acontecer ali, não era possível, há quanto tempo estaria naquele lugar? Será que alguém sabia que ele estava nesse hospital, alguém estaria vigiando seu quarto? Ultimamente a cidade era perigosa para pessoas como ele, havia muita perseguição, e mortes contra os seus, ou mesmo contra as garotas e garotos das ruas.
Caiu no chão sentindo as dores comuns da transformação, de joelhos tentou manter o controle, passou a respirar lentamente, manter o fluxo sanguíneo mais lento, para tentar bloquear a coisa toda, precisava sair, onde estavam suas roupas?
-Meu Deus! Que ódio, minhas roupas, onde está a porra da minha roupa?
Falava entre dentes, tentando se controlar, achou suas roupas guardadas, num pequeno armário perto da porta do banheiro do quarto, vestiu-as rapidamente de qualquer jeito, abriu uma fresta da porta para ver qual era a situação do corredor do hospital, como era a movimentação de pessoas, fechou a porta novamente, procurou por janelas, viu que poderia sair pelas janelas, começou a abrir uma para ver se cediam facilmente, sim poderia sair por ali, mas e se o vissem saindo pelas janelas? Melhor pela porta mesmo, abriu a porta devagar, viu que a movimentação era pequena no corredor do hospital, tentou sair de maneira comum, disfarçando a dor que já conseguia controlar, caminhava devagar procurando uma saída, achou uma porta lateral com um segurança distraído com seu celular, passou por ele sem que ele erguesse os olhos para ver quem era.



Respirou aliviado, estava na rua, sabia que não poderiam achá-lo tão facilmente.
-Porque Penny não apareceu pra me buscar?  Bem, nem sei se apareceu ou não, só acordei agora, aqueles filhos da puta quase deram fim em mim, que bafon. Preciso ligar pra ela.



O casal foi em busca do amigo no hospital. Ao chegarem, foram informados que ele não estava mais no quarto, e ninguém sabia informar o que tinha acontecido, ela por sua vez, já sabia que ele havia fugido, um alívio, saber que ele acordara e percebera a necessidade de sair dali, para onde ele teria ido?
-Será que ele foi pra casa Eddie?
-Querida, vamos com calma, o melhor a fazer é voltarmos e esperar notícias, você sabe que ele vai fazer contato.
-Sim, vamos voltar, estou preocupada.
Pegaram o carro, quando ela estava entrando no carro sentiu que estava sendo observada, havia um sujeito do outro lado da rua, um tipo sinistro, careca, grandalhão, ela sabia que já o havia visto, onde mesmo? Tratou de entrar rapidamente no carro. Imagens antigas surgiram rapidamente causando arrepios, momentos que ela gostaria de não se lembrar nunca mais.
-Vamos embora logo, estou agitada demais pra ficar   aqui.
-Hey! Calma mulher! o que é isso!
-Desculpe, apenas vamos embora. A cada dia esse lugar fica mais estranho não acha?
-Entre no carro, vamos pra casa.
-Eddie, você acha que eram as caras da igreja? Os mesmo das outras vezes?
-Pode ser, pelo que sei essa religião deles já está instalada aqui na cidade há algum tempo.
-Será que vieram atrás de nós de novo?
-Provavelmente, isso nunca vai ter fim, sabe que quem criou essa confusão não se preocupa nem um pouco em arrumar as coisas.
-Não é bem assim, as coisas não são tão simples.
-Bem, você sempre vai ser parcial no que se refere a ele não é mesmo?
Eddie disse isso com uma ponta de raiva e ciúme.
-A questão não é essa, não é simplesmente culpa de alguém, foi uma coisa que aconteceu entre eles, e depois aquele outro começou tudo isso... essa loucura toda...uma guerra.
-Está certo, não vamos discutir isso, porque nunca vamos ter a mesma visão, é impossível para mim.
-Querido, chega, eu preciso de notícias da Susy.



Roberto tentava se locomover pelas ruas mais vazias, sabia que sua aparência chamava a atenção, seu rosto estava cheio de equimoses, inchado, tentava passar despercebido, não era fácil, começou a buscar as ruas periféricas, onde as pessoas costumam não olhar duas vezes para tipos estranhos por medo de serem reconhecidas.   
Agradecia o frio e a chuva que era constante naquela cidade, podia se enrolar num cachecol que havia achado no hospital e “pegara emprestado", isso ajudava a esconder melhor seu rosto, ainda faltavam algumas horas para escurecer, a noite seria mais fácil caminhar sem ser visto, precisava saber se ela o havia procurado, ou mesmo se estava viva, não se lembrava do que tinham feito com ela, apanhou tanto, eram três batendo nele, se não estava enganado. Tentando desviar a atenção daqueles caras da sua amiga, o que eles não fariam com ela se a pegassem e conseguissem leva-la? Será que conseguiram?
-Preciso encontrar essa racha, preciso telefonar pra ela ou pro bofe. Começou a procurar um telefone público, seu celular não estava com suas coisas quando fugiu do hospital.
Achou um telefone público, discou, esperou vários toques, ninguém atendeu. Desespero.
-Caralho! Se pegaram ela, vão forçar, vão machucar pra valer, vai ser pior do que antes, espero que ela tenha se saído melhor do que eu.



-Amor, me dá teu celular, esqueci o meu em casa.
Ele procurou nos bolsos da jaqueta de couro.
-Puta merda gata, não trouxe o meu também.
-Caralho Eddie, vamos pra casa logo, se a Susy estiver tentando se comunicar com a gente ela vai ficar preocupada sem saber o que tá acontecendo, ele deve estar tentando ligar no celular.
-Calma, estamos chegando.
-Ok.
O nervosismo era tão intenso que o casal não conseguia conversar, ele dirigia nervosamente, ela fumava um cigarro quase esmagando o filtro entre os dedos sem perceber, suas mãos tremiam. Chegaram em casa Eddie estacionou de qualquer jeito o carro, entraram quase correndo, quando Eddie estava destrancando a porta pôde perceber um sombra nas árvores, havia alguém ali, porém não fez nenhum comentário para não alarmá-la ainda mais.
-Tranca bem essa porta querido, por favor, deixa tudo bem trancado, você pode conferir as janelas lá de cima?
- Claro, fique tranquila, ok? Está tudo bem fechado, cuidei de tudo antes de sairmos, mas vou verificar de novo.
- Cadê meu celular, onde está...
Ela achou o aparelho na cozinha no balcão perto do fogão, havia cinco chamadas de um número que ela não conhecia.
- Deve ser um número de telefone público, deve ser a Susy.
Procurou o telefone dele, estava jogado por ali também, mais outra quantidade de chamadas, outro número.
- Ele deve estar ligando de lugares diferentes para não ficar muito tempo parado, e agora, e agora? Ai Susy, me dá um sinal de novo por favor!
- Está tudo fechado, devidamente trancado, pode ficar sossegada meu bem.
- Obrigada querido, ela o abraçou, com medo, o conforto do corpo dele era um grande alívio para ela, todas as vezes que ela sofria aquelas transformações, tudo era tão dolorido e penoso, todas às vezes, quando a coisa terminava, seu único refúgio eram  os braços do seu amor, a força do seu carinho, suficiente pra fazer com  que ela recobrasse o controle.
- Obrigado meu amor, obrigada de verdade por ainda estar aqui comigo, confesso que dessa vez estou com medo, como nunca senti antes, vi um homem nos observando quando estávamos saindo do hospital, sei que o conheço, já o vi antes, ele me olhava direto nos olhos, apesar de estar de óculos escuros, muito sinistro, eles estão perto querido, muito perto...
- Hey, calma, calma, pode ter sido uma confusão você está nervosa com medo. Ele sabia que ela tinha razão, ele ainda podia ver o cara entre as árvores lá fora.
A noite foi chegando, as notícias não, ela estava inquieta, andava de um lado pro outro, procurando algo com que se distrair, mas nada realmente absorvia sua atenção, pegou um cigarro, foi pra cozinha, costumava fumar na copa quando estava muito frio pra fumar na varanda, acendeu nervosamente o cigarro, o tremor nas mãos era constante, ela já havia percebido, achava que era por conta do nervosismo, mas era uma reação física constante de uns dias pra cá, pegou uma dose de uísque, pra ver se conseguia ao menos aliviar o tremor.
- Você não devia beber querida, devia procurar usar menos drogas.
- Sei disso, mas sei também que nunca fui uma freira, e preciso relaxar um pouco, quero ver se essa porcaria me ajuda.
- Ok, venha amor, sente-se comigo na sala, você pode fumar por lá mesmo, deu um de seus melhores sorrisos pra quebrar aquela tensão, ao que tudo indicava funcionou.
- Minhas mãos não param de tremer, será um efeito de toda essa merda?
- Provavelmente, você sabe que as consequências são desconhecidas, sabe o preço que está pagando.
- Sei, vendemos nossas almas não é mesmo? Ou melhor, ela me foi sequestrada.
- E agora não existe outro caminho existe?
- Não, agora não há mais outro caminho.
Temos que continuar, a coisa saiu do controle por causa daqueles malditos religiosos, eles estão envenenando as pessoas, tentando fazer o tempo das barbáries voltar, querem dominar pelo medo, querem usar o poder “divino”, pra controlar a massa o medo, claro, sempre é a melhor forma de controlar, ele estão transformando as pessoas em criaturas violentas, temos que tentar eliminar esses filhos da puta.
- Desculpe meu bem, ele a abraçou, mas é tudo tão dolorido, tanto sofrimento...eu não entendo...essa luta doentia, tudo isso...me desculpe. Ele girou nos calcanhares e subiu para o quarto deixando ela sozinha na sala, que parecia fria agora, isolada, ela olhava ao redor e sentia o gelo, o tremor aumentando dentro do seu corpo, a vontade de chorar e nunca mais parar, pegou outro cigarro, sabia que seu corpo estava sofrendo uma destruição desenfreada, um cigarro a mais, não faria a menor diferença mesmo.



Roberto por fim chegara para os lados do famoso bairro conhecido por ser área de prostituição, onde conhecia as pessoas que o receberiam, tinham tudo pronto pra ele sempre. Eram travestis que trabalhavam por ninharias, na maioria das vezes faziam sexo em troca de um punhado de “farinha” para cheirar, e faziam isso a noite inteira, cada vez que o pó acabava, saiam em busca de um outro cliente disposto a lhes dar qualquer coisa em troca de um trocado ou um pouco de pó.
- E aí bicha, o que fizeram com a senhora? Acabaram com o rostinho da bonita, que de bonita não tem nada, o grupo ria, a convivência entre as travestis era cruel, porque viviam em concorrência, na busca de clientes, mas na verdade, eram uma família, que acabavam se apoiando a seu modo.
- Olha viado, preciso ficar aqui, me pegaram de jeito mesmo, não posso sair por aí dando o ar da minha graça.
Roberto precisava fazer parecer para o grupo de travestis, que havia apanhado de um grupo de homens que estavam fazendo sexo com ele e usando drogas, os travestis não sabiam direito o que acontecia, mesmo porque elas estariam em perigo real se soubessem de algo mais e ele não queria colocá-las em risco, eram pobres coitados, que se arrastavam na vida, dependendo do pó se submetendo a violências sexuais para conseguir doses diárias de drogas, era assim que levavam a vida, nada além disso, não ofereciam perigo.
- Olha Bi, a gente vai sair pra atender uns bofes na avenida, você fica aqui, tem pó se quiser, tem vinho pra senhora se perturbar o quanto quiser, fica à vontade.
- Obrigada Margot, a senhora arrasa, trocaram beijos afetuosos, as travestis saíram, montadas em suas roupas espalhafatosas de prostitutas baratas, nem homens nem mulheres.
Roberto ficou ali sozinho, estava numa  casa velha grande e destruída, um tipo de ruína antiga, com vários cômodos vazios e imundos, apenas alguns espaços eram ocupados, havia uma televisão, uma cama de casal, com um colchão que fedia a suor e mofo, abriu o pequeno armário perto da pia e achou uma caixinha onde sua amiga travesti havia indicado onde ficava o pó, pegou a caixa, esticou duas carreiras na mesinha perto da cama, cheirou as duas com um canudo cortado, encheu um copo com aquele vinho barato, começou a procurar cigarros de forma agitada, não poderia ficar sem cigarros agora, mas não podia sair pra conseguir alguns, achou um pacote no mesmo armarinho, que bom! Acendeu na boca do fogão, ainda não tinha visto o isqueiro.
O veneno agora circulava nas suas veias o deixando agitado e petrificado, só conseguia fumar e sentir a agitação química de seu corpo, a droga reagia de forma violenta, era mais perigosa. Deixou a tv sintonizada num canal de clips musicais, estava passando um show de rock, podia se deitar deixar a coisa toda circulando no sangue, mais e mais, a cada novo tiro dado.

A noite correu normalmente, apesar da tensão, ela acabou dormindo, sono agitado, conseguiu descansar. Acordou ainda era de madrugada, seu amor dormia tranquilamente, o sono dos puros, daqueles que são iluminados ou anjos, como ela o amava!
Levantou delicadamente da cama para não acordá-lo desceu as escadas, a casa estava toda escura exceto pelo corredor central, que ela gostava de manter aceso para orientação noturna, como gostava de dizer. Andando agora pela casa, percebeu que não tinha visto seus gatos ainda, onde estariam?
Foi até a sala, ficou parada um tempo no meio daquele cômodo enorme sem coragem de se mexer, sentia certa opressão vinda das janelas, queria olhar lá fora, mas não tinha coragem, tinha medo de ver alguém vigiando a casa. O frio intenso da estação a deixava deprimida, ouvia a chuva que caía constante, começou a se aproximar da janela, melhor não olhar.
Sentou-se naquele grande sofá aconchegante que ela escolhera para completar a decoração daquela casa que amava, a primeira casa onde era feliz de verdade, onde podia viver com seu amor, sem que tivesse alguém morando junto, amava aquele lugar, procurou seus cigarros, viu sua caixinha mágica, sim , vamos a ele então, sua caixinha mágica era onde guardava seu fumo, preparou seu baseado, essa coisa tinha um poder incrível de controlar e abrir sua mente, costumava usar quando precisava ir além, em outras ocasiões como esse noite, seria apenas para relaxar mesmo, deixar a substância correr no seu sangue com seu maravilhoso efeito calmante inebriante, que delícia,  ela sempre gostou disso.
Foi uma das poucas coisas que ela trouxe consigo de seu velho país, de onde tinha precisado partir depois que Scott havia aparecido, suas lembranças daquela terra eram confusas e divergentes, sentia ódio e alegria daqueles tempos, de sua infância bizarra e angustiante, depois uma adolescência controversa e rebelde, onde tudo começou,  as lembranças chegaram de novo,  queria entrar agora no sono mágico, sim, o sono delicioso que o baseado proporciona….vou partir pra onde ninguém pode me achar agora, se aconchegou naquele sofá mesmo, tinha sempre um cobertor por ali nessa época, vamos querida, é hora de partir, precisamos conversar agora, era a voz que ela queria ouvir, que estava esperando tanto, sim vamos embora…..caiu no sono profundo.


Roberto resolveu que ficaria por ali, era afastado  e tranquilo, faria contato sim mas precisava dar um tempo, precisava ver também o que estava acontecendo, sabia que o fluxo de manipulação de gente ocorria mais em zonas pobres e afastadas, em países de terceiro mundo principalmente, mas ali, naquela cidade que havia demorado tanto pra aprender a gostar e entender, já tinha observado que havia mutações, a involução ocorria ali ele sabia, precisava de informações, ia dar um giro, falar com as travestis, as putas das ruas, os traficas, e ver o que rolava, conhecia todos, ali era seu ambiente natural, tinha vindo de um lugar parecido com aquele no Brasil, invariavelmente se dirigia  para lá quando precisava se esconder ou conseguir informação, era seu lugar favorito, gostava de verdade de ver essa coisa do submundo. As pessoas nunca entendiam quando ele falava o quanto amava ver tudo aquilo, a miséria, a pobreza, a violência, ele amava aquilo, para ele era a vida real, era o que movia sua vontade, gostava de ficar ali dias, se drogar, arrumar uns caras e fazer sexo, com um, ou dois, e esquecer o que o esperava, ficar naquela proteção imunda.
Sua amiga fora a única pessoa que aceitara sem questionar, no começo ela evitava aparecer com ele nesses lugares, dizia que a fazia  lembrar demais do Brasil, depois ela  costumava ir com ele para lá e faziam aquelas festas imundas, passavam dias se drogando, fumando, bebendo, ela não fazia sexo com ninguém, nesse ponto Penny era muito seletiva, gostava de homens loucos e deliciosos, isso ele tinha que admitir, ela sempre teve os melhores, mas depois do Eddie, ela passou a não pensar mais nisso, sua loucura se expressava em tudo que não envolvesse sexo, ele achava que sua amiga era mais louca do que ele nesse ponto.
- Então meu querido! Quanto tempo.  Roberto se dirigia a um rapaz de aspecto violento, um traficante que era conhecido seu, Roberto costumava fazer favores sexuais para ele em troca de drogas, às vezes em troca de nada mesmo, ele gostava de sexo sem trocas.
- Me diga, tem aparecido gente estranha por aqui?
-Não, não tem, vê se não me traz confusão pra cá filho da puta.
-Calma Johnny, eu não trago ninguém aqui você sabe, só aquela minha amiga.
-Sei, aquela delícia, por anda ela? Queria pegar aquela loira e dar uma trepada com ela. Quebra essa pro seu parça aqui hein viado, depois eu como você.
-Meu amor, aquela racha não é dessas, ela tem as loucuras dela, mas com bofe, ela só tem os dela, nem sonha meu bem, o negócio dela aqui e só “pertubação”, ela vem aqui porque aqui ninguém acha ela.
-Sei, mas se eu pegasse ela, fodia gostoso, tenho tesão quando vejo ela aqui, uma hora cato ela num canto a força, haha.
-Te garanto que você vai se arrepender se fizer isso Johnny. Ele ria, só de imaginar o que ela poderia fazer com esse traficantezinho de merda se fizesse a mutação na frente dele enquanto ele tentava estuprá-la, seria engraçado de ver.
-Johnny, aquele nosso trato, se aparecerem por aqui uns caras diferentes, vocês precisam me avisar ou avisar a loira, entenderam?
-Entendi sim, a gostosa já mandou a grana, além de gostosa é rica, um dia vou pegar ela pra uma brincadeira.
-Esquece isso cara, essa mulher nunca vai ser sua, que porra é essa.
-Fica frio viado, não vou mexer com a sua amiguinha, por enquanto, tenho uma tara por ela, mas se eu resolver, que vou querer ela de verdade, ninguém vai me impedir.
-Ah sim, você quem sabe, mas ela mesma poderá responder isso se resolver atacar, meu querido.
Roberto já se virava dando as costas ao tal traficante, porém foi parado pelo mesmo:
-O que você tá querendo dizer com isso sua bicha de merda?
Roberto meneou a cabeça de forma irônica e arrogante.
-Solta meu braço, seu bosta, já sentia a adrenalina se alterando no sangue, a pulsação aumentando, o rapaz pareceu  ter percebido alguma alteração em Roberto, porque começou a afrouxar o aperto no braço a relutar em ficar tão próximo assim daquele gay tão estranho, essa era a verdade, Johnny sempre achara esse viado muito estranho, desde o primeiro dia que tinha aparecido, não era como os outros que circulavam ou viviam por ali, esse era um tipo mais reservado, calado, agressivo até, era mais esperto que os outros, não ficava pelas ruas fazendo programas baratos por drogas.
Ele chegava de vez em quando, buscava o lugar de sempre para ficar e usar suas drogas, e era muita droga, isso ele sabia, arrumava uns garotos pra se divertir, ele mesmo costumava deixar a bicha chupar seu pau, era bom. Mas quando a bicha vinha com aquela amiga, puxa vida, o mundo parava, quem era aquela mulher? Até hoje ele não sabia, ela mandava grana para eles, muita grana, para que protegessem seu amigo e ela mesma, não sabia nada sobre ela, só que vinha pro bairro, se enfiava naquela casa, ficava dias também, diziam que ela ficava se drogando juntos com os viados, ele nem podia imaginar isso, aquela princesa, tão séria, calada, sempre meio escondida, falava apenas com algumas pessoas, diziam que ela era louquíssima, Johnny não podia acreditar, queria ela, sempre quis desde o primeiro dia.
-Um dia princesa…um dia…
-Ok, cara. Roberto cortou seus pensamentos, eu preciso ficar mais uns dias por aqui, ainda não posso sair, me arruma mais pó, deixa lá na casa, sabe que já tá incluso no pacote de pagamento, não sabe?
-Sei sim, seu pó daqui a pouco tá lá.
-Obrigada querido, se quiser pode passar lá depois também faço um boquete gostoso em você.
-Talvez.
Agora quem se virou e foi embora foi o traficante, Roberto resolveu voltar para a casa, precisava ligar pra ela. Foi andando, na verdade quase correndo, sentia-se sendo observado, talvez não, talvez fossem os olheiros das ruas. Chegou, achou o telefone que tinha pedido pra ser comprado, começou a discar.
-Atende racha, ele resmungava, enquanto ouvia o sinal de chamar do aparelho, atenderam.
-Alô.
-Gata!
-Susy! Era um grito de alívio. Não acredito! Que bom, eu tava te esperando, porque demorou tanto, você não sabe como e estava desesperada? Caralho! Porque você não me ligou antes, que porra!
-Epa! Que porra é essa? Deixa eu falar caralho!
-Desculpe, eu tô desesperada esperando seu contato.
-Eu sei, deixa eu falar, tô aqui, você sabe, desde o dia que saí daquela paura de hospital, fugi de lá, fiquei com medo de alguém aparecer, quem eram eles? Você sabe? A gente precisa falar sobre eles, tô aqui desde aquele dia, me “pertubando” tô louca, nem sei como tô viva ainda, a senhora vai vir? Vai precisar passar uns dias aqui comigo, não vai dar pra chegar e sair no mesmo dia, é arriscado.
-Vou, sim, vou te encontrar aí, hoje mesmo, mais tarde, vou pedir pro Eddie me deixar perto, você vai precisar mandar as travestis me pegarem no lugar de sempre ok?
-Claro bebê, como sempre, já abasteci o casebre de “pertubação” a senhora vai sumir do radar por uns dias, avisa seu bofe que vai demorar.
-Ele já tá acostumado.
-Arrasô, até depois então.
Ela se sentiu subitamente tensa, imaginando que teria que dizer ao seu amor que teria que deixá-lo por vários dias. Ele sabia que isso acontecia, ela já havia feito isso inúmeras vezes, estava angustiada em deixá-lo, precisava. Bem, que fosse.
-Querido, a Suyi acabou de me ligar.
-Ah finalmente, onde ele está?
-Onde sempre está, no gueto, irei pra lá essa noite.
-Por que? É realmente necessário?
-Preciso, depois de tudo aquilo, preciso falar com ele, precisamos analisar e ver o que faremos, e isso não pode ser feito aqui.
-E como vai ser?
-Querido, como temos feito todas as vezes
-Ok, você vai ficar fora por quanto tempo?
O olhar que ele lançou a ela quando fez essa pergunta era tão triste e cansado que ela quase chorou.
-Não sei, dias, talvez uma semana.
Ah, como detesto tudo isso! Eddie se levantou da poltrona que estava sentado, andava pela sala, passando as mãos pelos cabelos, tão sedutor, aquele simples gesto, ela quase desistiu de tudo, só de olhar, mas não podia.
-Amor, olhe pra mim, ela estava ao seu lado agora, tentando olhá-lo direto nos olhos, a única maneira que conhecia de deixá-lo seguro, era falando diretamente com os olhos.
-Escute, preciso, você sabe, preciso ver a Susy, e decidir o que faremos agora que nos acharam de novo, agora a coisa se complica mais uma vez entende?
-Sim eu sei disso querida, mas tenho medo, por você.
-Meu amor.Disse isso abraçando com carinho.
- Sou mais perigosa que todos eles juntos, sabe disso. Ele deu um sorriso sem ânimo,
-Sim, sei disso, mas ainda assim, é minha garota.
-Fique tranquilo, lá estamos mais seguro que em qualquer lugar desse mundo, toda aquela bandidagem nos protege no final das contas.
-O que não deixa de ser uma ironia, não é mesmo?
-Sim pode ser, mas faz tempo que deixei de pensar sobre a ironia da vida, vou subir tomar um banho, pegar o preciso, você me leva depois, no lugar de sempre?
-Espero aqui.
Ela subiu, sua cabeça rodava, e agora, o que ia fazer? Pra onde iriam, será que teriam que deixar aquele lugar? Tomou banho tentando aproveitar o calor da água e não pensar em nada, apenas sentir o conforto do momento.
Saíram de casa de forma descontraída, ela não carregava nada que pudesse indicar uma viagem ou demora em retornar, quem visse diria que estavam indo jantar fora.
-Como sempre, vamos ao mercado, vou ao banheiro, o mesmo esquema, as travestis estarão me esperando.
-Está certo.
Já no mercado, não podiam se despedir da forma que gostariam, ela apenas olhava para ele, lágrimas escorriam daqueles olhos que ela tanto amava, seu coração disparou, uma dor horrível enquanto virava as costas e o deixava sem olhar pra trás como se fosse apenas um momento.
Do lado de fora, um carro esperava, ela já o conhecia, entrou.
-Olá meninas, eram dois rapazes, vestidos de forma sóbria e elegante, os dois eram bem bonitos, com ares de diversão.
-Oi racha, você demorou, já estávamos ficando bege com sua demora, achando que alguma coisa tinha dado errado.
-Não, apenas não conseguia me separar do Eddie… difícil demais.
-Ai toda vez é isso, relaxa, vamos embora, a senhora vai ficar tão louca agora que nem vai se lembrar dele. Eles riam, tentando distraí-la daquela situação que sempre era tensa para todos. Eles eram travestis, que sempre ajudavam ela e Roberto, sabiam dos riscos, e justamente por isso gostavam tanto de fazer tudo aquilo, fora a grana que rolava, com certeza, sempre tinha muito dinheiro em movimento e muita droga. Ela sabia muito bem manipular tudo e todos ao seu redor. Meu Deus! Como posso fazer isso com todas essas pessoas? Costumava pensar isso em certos momentos, que se fôda, agora é tarde pra pensar nisso.
-Vamos crianças, vamos brincar, com brincadeiras de adultos, ela ria, mas na verdade queria apenas se entorpecer para não pensar em Eddie, era só isso que sentia, dor. A dor de lembrar daqueles olhos no mercado, implorando de forma muda para que ela não o deixasse de novo.
Chegaram onde Roberto os esperava, o lugar parecia até ligeiramente arrumado, fedia menos que ela podia se lembrar, as coisas estavam menos sujas. Roberto percebeu que sua amiga olhava ao redor reparando nisso, e enquanto se dirigia a ela para o abraço tão esperado, disse:
-Arrumei um pouco, pra você não se sentir tão mal, e a abraçou com força, quase chorando de desespero.
-Susy! Meu querido, eu precisava tanto ver você, saber como estava, porque demorou tanto pra fazer contato?
Ela ainda não conseguia largar seu amigo, como se assim garantisse que ele não sairia de perto dela nunca mais.
-Gata, quando saí do hospital, estava toda quebrada, uma coisa horrorosa de se ver, tiver que vir me escondendo, pra não chamar atenção, olha pra mim, ainda estou toda roxa, ele mostrava o rosto machucado para sua amiga, dentes quebrados, os olhos inchados.
-Vamos precisar arrumar essa sua cara meu bem.
-Sim vamos, mas depois falaremos sobre tudo, agora temos nossas amigas aqui, vamos fazer uma pequena festa de comemoração, não é mesmo meninas?
-Claro! Responderam os dois travestis em uníssono, estavam todos ansiosos para começar.
Roberto foi até o armário, pegou uma caixinha de madeira muito bonita entalhada, dentro dela havia um saquinho com pó, numa quantidade suficiente para dias de consumo, ele começou a esticar várias carreiras brancas numa bandeja de vidro que tinha comprado para isso especificamente, todos começaram a ficar agitados antes mesmo de começar a aspirar aquele veneno, cada um tinha para si um canudo cortado, para personalizar o uso da substância. Ela foi a última, todos já estavam com cigarros acesos, copos de vinho nas mãos falando sobre tudo e nada, ela olhava, para aquela linha branca esticada, e parecia indecisa,
-O que foi, não quer?
-Não é isso, estava só pensando, se abaixou e de uma só vez aspirou tudo, ao erguer a cabeça, seu olhar já havia adquirido um brilho feroz, já havia esquecido seu amor, agora era aquela criatura má de verdade, não precisava se controlar.
-Um cigarro.
-Aqui, sua taça de vinho, o mais estranho de toda a cena, naquela ruína miserável, que apesar de ser um lugar espaçoso, extremamente pobre, ela havia mandado que comprassem, taças de cristal, algumas bandejas de vidro, pequenas coisas que ela gostava de usar mesmo quando sua mente fosse projetada para outro lugar. Fumava seu cigarro de forma desconectada, na verdade ainda não estava pensando em nada.
-Faz outro pra mim.
-Pra todas nós querida.
Todos seguiram em uma nova rodada de pó.
-Como estão as coisas por aqui?
-Por aqui tudo bem, já sondei tudo, falei com quem precisava, tá tudo certo, eles não nos acharam aqui, não conhecem esse lugar, fica tranquila.
-Espero que sim, puxa, desde aquele dia, não tenho mais um segundo de paz, não consigo dormir, o que aconteceu? Eu não lembro, depois que eles cercaram a gente, eu não me lembro de mais nada, só depois quando estavam levando você pra ambulância, aquela confusão.
-Mais um tiro?
-Sim
-Bem, nem eu sei dizer exatamente o que aconteceu, apanhei tanto daqueles filhos da puta, se a polícia não tivesse aparecido do nada, nem sei.
-Bom, agora não vamos poder conversar muito mesmo, com nossas visitas, elas estão nos chamando, vamos.
Foram ao encontro dos outros dois travestis no outro cômodo da casa, começaram conversas inexpressivas, na maioria sem sentido, todos completamente afetados pela droga, todos com aquele brilho grotesco nos olhos.
-Bicha, preciso fazer sexo, a senhora sabe como fico quando estou “pertubada”, vou embora “caçar um bofe”.
-Eu vou com a senhora, também tô querendo, aliás está na hora da gente trabalhar não é mesmo queridinha?
O outro travesti começou a pegar seus casacos e ajuntar suas coisas para irem embora.
-Meninas, obrigada mais uma vez.
-Pode contar com a gente, a senhora é um escândalo, elas riam nervosamente.
-Separa um pouco do pó pra elas levarem.
 Já está com elas.
-Ah, ok.
-Até logo queridas, despediram-se com beijos rápidos, movimentos duros, e sorrisos forçados por causa dos efeitos químicos da droga.
-Ainda bem que elas se foram, preciso que você chame ele aqui.
-A senhora está falando sério? E o seu amado Eddie?
-Uma coisa não tem nada a ver com a outra, o Eddie não faz parte disso, você sabe que “ele” faz parte da nossa vida e de que forma, preciso.
-Sim eu sei, ele deve chegar logo, eu já sabia que ia me pedir isso, eu vou sair arranjei dois bofinhos pra atender, vou “fazer” os dois. Nisso ouviu-se uma batida na porta.
Ela sentiu o coração pular desenfreado, era Scott, aquele era um monstro como ela, que vivia há mais tempo do que ela como um monstro, um homem maravilhoso, fisicamente tão sexy, com um corpo tão deliciosamente perfeito, cheio de tatuagens, olhar feroz, comportamento tão feroz quanto seus olhos, com uma voz rouca e sedutora, ele era tão poderoso e mau quanto ela, e ela precisava dele tanto quanto ele dela, ele era seu criador, por assim dizer, dela de Roberto e de seu irmão.
-Olá Scott.
-Olá, ele se aproximava dela e já a segurava pela cintura, enquanto puxava seus cabelos com força a beijando, aquilo a deixava enlouquecida, ele era violento, e isso ela adorava, ficava completamente submissa, ele sabia que era assim que ela gostava. Depois de beijá-la com força e deixá-la acesa pronta pra pular em cima dele, ele a largou, foi até a mesa, esticou, quatro tiros de cocaína, aspirou dois, ofereceu a ela, o que ela aceitou, voltou a beijá-la, já tirando suas roupas, ela estava pronta.
Scott enfiava a mão entre suas pernas e sentiu que ela estava completamente molhada, deu um sorriso cínico,
-Pronta, como eu gosto.
Ela não conseguia falar, tamanha a excitação que a estava dominando.
Ele a atirou no colchão, terminando de arrancar sua calcinha, e começou a esfregá-la, ela quase gritava de prazer, e via ele abrindo as calças, já sem camisa, aquele corpo perfeito, seus rosto mau a enlouqueciam, Scott a virou com força de costas, abrindo muito suas pernas e a penetrou violentamente, ela gritou, ele gemeu, assim que gostava, e continuava penetrando com força cada vez maior, ela achava que ia morrer ali, por fim ele diminuiu um pouco o ritmo, saiu de dentro dela, levantou, foi a até a mesma e retornou com a bandeja de pó, esticou várias carreiras da droga, e deixou na cama, voltando a agarrá-la com força, ela estava de quatro na cama, ele forçava sua cabeça contra a cama a esmagando.
-Cheira, cadela.
Scott a puxava pelo cabelo, ainda dentro dela, penetrando sem parar a forçava a cheirar o pó, aquilo era bom demais, ela sentia que ia arrebentar de tanto prazer, a violência de Scott era assustadora, e ela adorava aquilo, nunca sabia o que esperar.
-Cheira mais uma, vamos, cheira.
Sendo penetrada com força, ele esticava o pó nas suas costas e cheirava no corpo dela sem tirar seu pau de dentro, ela ia enlouquecer, como aquilo tudo era bom, por fim ele a obrigava a chupá-lo até que gozasse na sua boca e a obrigava a engolir tudo, ela quase desmaiava depois, nunca ninguém conseguia fazer nada parecido com isso, ela era viciada nessa violência.
Scott saiu da cama, vestiu suas calças, de forma sexy e distraída, foi até a mesa, preparou mais carreiras de pó, aspirou mais duas, levou a bandeja até o colchão imundo onde ela ainda estava estirada, exausta  e violada, deliciada com a violência daquele homem brutal e lindo, ele praticamente a obrigou a cheirar o pó, ela o obedecia cegamente, sempre era assim, se ele a obrigasse a rastejar pelo chão para lamber seus sapatos ela o faria, sem pensar, o prazer que ela sentia em se submeter a ele era inexplicável, e ele tinha pleno domínio desse fato, por isso sempre agia de forma brutal e dominadora, ele gostava disso, dominar as pessoas era uma arte que ele realizava muito bem.
Scott, não se limitava a gêneros, ele apreciava a beleza, o poder de dominar as criaturas, gostava de homens e mulheres, mas ela, há séculos era sua criatura especial, protegida, aquela que ele esmagaria se pudesse, porque da mesma forma que gostava de machucá-la, gostava mais ainda de ver o prazer que ela sentia estando com ele.
-Então garota, ele acendia um cigarro, ele era quase obsceno fazendo isso, ela já sentia vontade de trepar com ele de novo.
-O que ocorre, hora de fugir outra vez? Problemas? E aquele seu brinquedinho bonitinho? Quando você vai me emprestar ele um pouco?
-Pare com isso, você jamais vai encostar seus dedos nele, se referiam a Eddie, sabe disso.
-Sei, sim, ele sorria arrogante, ele é seu brinquedinho particular, eu faria um estrago com ele.
-Pare de falar dele! Ela estava irritada de verdade, não podia aceitar que Scott se referisse ao seu amor assim de forma tão vulgar, o que ela vivia com ele nada tinha a ver com esse lixo todo, ele na realidade nem poderia imaginar ou sonhar o que realmente ocorria, toda a violência, todas as drogas, o sexo, as misturas, as mutações, ele fazia apenas uma ideia superficial das coisas, mas jamais presenciara essa parte, jamais.
-Esqueça ele, meu assunto com você é outro, nunca mais toque no nome dele.
-Eu sei delícia, ele a puxou pelos cabelos com força, aquilo bastou para deixá-la completamente excitada, ele passava a língua por seus seios, ela achava que ia enlouquecer, sua respiração começou a acelerar, ela percebia a violência se acumulando nele, e aquilo a deixava mais enlouquecida ainda, as mordidas doloridas que começava a sentir nos seios bastaram para que ela estivesse pronta outra vez.
-Completamente obediente agora entendeu? Falava isso a forçando para o chão, puxando seus cabelos com força.

Mais uma vez, um sexo violento delicioso.